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REGIÃO

A cidade esquece?

Presentes que não vem em caixas
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Não é um esquecimento de quem tem Alzheimer, por exemplo. É escolher não lembrar. Esse tipo de esquecimento é indiferença, não é falha – é seleção. Há vidas que vão sendo pouco a pouco deixadas de lado. Entre elas, as de quem envelhece. Como a minha. A sua. A nossa.

Há um processo contínuo de desconsideração. A cidade não para. Segue funcionando, mas certos corpos já não estão previstos e não contam nesse movimento. Não estão no campo de interesse. Estão velhos. Não é que eles desaparecem, pelo contrário, é a cidade que não os reconhecem mais. E como que esse esquecimento se materializa no cotidiano?

Entre outras realidades do nosso dia a dia: na maioria da realização das reuniões ordinárias e extraordinárias da Câmara Municipal. No orçamento público da cidade. Na travessia apressada de algumas vias públicas. Nesse ritmo super acelerado e muito corrido, fica como sendo que a cidade pertence somente às pessoas que dão conta dessa caminhada.

É como se se envelhecer fosse um deslocamento atrapalhado e indesejado – e não uma condição humana que pertence a todos nós. Esse esquecimento se naturaliza. Passa a ser vivido como sendo parte da dinâmica da cidade. Normal. Deveríamos achar estranho e nos indignarmos com o que nos incomoda profundamente. É muito melhor continuar jogando purrinha com os amigos no cafezinho da padaria.

Reverter essa lógica exige uma mudança de mentalidade: a cidade precisa ser pensada e planejada à partir da diversidade e da pluralidade dos corpos e dos tempos. O espaço urbano deve acolher, e não selecionar quem deve fazer parte dele.

Envelhecer não pode ser visto como sendo a ameaça de perder lugar na fila do pão. Uma cidade que se lembra de suas pessoas idosas é aquela que deve sustentar as suas presenças. E numa cidade, como a nossa, com mais de 100 mil pessoas 60+, ela não pode esquecê-las, porque, se não, corre o sério risco de esquecer de si mesma. Não pode!



Fonte: Google Notícias

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