Natural de Juiz de Fora e formado em Ciências Sociais pela UFJF, Gabriel Moraes – ou simplesmente Gabb – transformou humor, repertório fashion e linguagem pop em assinatura própria. Aos 30 anos, o influenciador e criador de conteúdo se tornou um dos nomes mais comentados da moda na internet brasileira com vídeos afiados sobre tapetes vermelhos, celebridades e comportamento fashion, sempre embalados pelos bordões “iconic”, “horrorooosa”, “she’s a movie star”, “eu bati na perna, eu inclinei para trás” e o famoso “eu vejo…”.
Morando em São Paulo, onde comanda o programa “Ambulatório da M.O.D.A”, atualmente na 4ª temporada no YouTube, Gabb vem ocupando cada vez mais espaço no universo fashion, entre semanas de moda, collabs, eventos e premiações. Depois da projeção nas redes, também passou pela TV, comentando looks no “Domingão com Huck”.
Debochado, divertido e assumidamente camp, representa uma nova geração da moda brasileira: mais plural, irreverente e conectada à internet, sem perder o jeitinho mineiro de conversar como quem recebe para um café. Agora, estreia também no audiovisual com a personagem Pitonisa, escrita especialmente para ele pelo autor Gustavo Reiz na novelinha “Icônica – De faxineira a fashionista”, produção original Globoplay.
Patrícia Alvim – Como foi sua trajetória até chegar à internet e à moda?
Gabb: Estou há 10 anos tentando, falhando e experimentando até chegar no que sou hoje. Comecei lá no Snapchat até a era do TikTok.
Você chegou a se envolver com moda em JF? Como é sua relação hoje com a cidade?
Eu morei em Juiz de Fora até 2016, quando me formei em Ciências Sociais na UFJF. O contato mais próximo que eu tinha com moda era o Fashion Days. Juiz de Fora é o meu lugar seguro, onde eu busco inspiração. Quando olhamos para nossa criança interior, conseguimos buscar novas experimentações. Voltar para lugares como a casa da minha avó, restaurantes que eu gosto, como o Berttus, ou tomar um sorvete na Planet, tudo isso enriquece meu environment de criação
Em que momento a moda passou a ser possibilidade de carreira?
Era um sonho, mas que eu achava muito difícil de acessar. A primeira possibilidade de trabalhar com a moda foi o convite para apresentar o tapete vermelho do MTV Miaw. Ali tive contato com o estilista Valério Araújo, que me emprestou meu primeiro look
Você carrega algo mineiro na forma como enxerga moda e comportamento?
O que tem mais de mineiro em mim é a forma que eu comunico, essa intimidade fácil. Eu queria que as pessoas, quando estivessem me assistindo, elas se sentissem tomando café com uma tia. Vão ter comentários engraçados, um pouco problemáticos, mas você vai se sentir em casa. E o mineiro tem muito disso, de transmitir esse aconchego por meio de palavras e jeitinhos. É sempre uma grande casa de vó.

Você costuma dizer que adota uma estética camp. Como você definiria o camp para quem ainda não conhece o conceito?
Camp é uma estética do exagero, da alegoria e do drama. Susan Sontag escreveu sobre isso em 1964 no seu manifesto “Notas sobre Camp”. E eu amo o Brazilian Camp, representado em pessoas como a Elke Maravilha, a Vera Verão, o Chacrinha e a Xuxa.
Seus vídeos têm um olhar muito particular sobre moda, ao mesmo tempo crítico, teatral e divertido. Como nasceu esse formato?
Foi super inspirado no programa “Fashion Police” da Joan Rivers , mas eu tive que afinar muito para chegar no modelo atual. Comecei comentando os tapetes vermelhos desde os anos 2000, o Met Gala, Grammy, Oscar, e de alguma forma eles começaram a furar a bolha. Criei uma estética de humor, uma forma de criticar, mas de elogiar também. No Brasil, as pessoas levam para o lado pessoal quando você fala mal de um artista, se ofendem. Então eu entendi que não poderia só falar mal, eu tinha que gostar de alguma coisa também. E aí foram surgindo as palavras ‘horrorooosa’, ‘iconic’ e ‘movie star’, que era o elogio máximo da comediante Joan Rivers que eu consegui trazer de volta
O humor sempre esteve presente na sua personalidade?
Sim, o humor sempre foi uma base. Até quando eu estou de mau humor, parece que ele vem ainda mais forte. Brincando você pode falar tudo, até a verdade. Uso o humor para me comunicar e pontuar as coisas sem ficar chato, nem pesado. O segredo da comunicação é não deixar pesar. E o humor traz essa leveza.
Quais são suas maiores referências ou inspirações no universo fashion?
Sem sombra de dúvidas, a maior referência é a Joan Rivers, do programa “Fashion Police”. Eu gosto muito da escritora americana Fran Lebowitz, com um humor debochado e de confronto que eu amo. E também muitas mulheres poderosas, protagonistas de novela como Laura Diniz (“Celebridade”), Leona (“Cobras & Lagartos”), Thais Araújo, Glenn Close (Cruella). Clodovil, Ronaldo Esper e muita gente que veio antes de mim.
O que mais te encanta no universo da moda atualmente? E o que mais te incomoda?
O que mais me encanta é a criação de imagem e personalidade por meio da estética. Isso sempre faz o meu coração acelerar. A comunicação visual sempre ficou muito forte na minha memória. Eu lembro do look que a Julia Roberts usou no Oscar dos anos 2000, por exemplo. Essa memória fotográfica me faz querer cada vez mais consumir moda e me divertir com ela. O que mais me incomoda são as pessoas que querem usar a moda para se promover, com coisas que não são da moda.
Como nasceu o “Ambulatório da M.O.D.A”? Quais convidados foram mais marcantes para você até agora?
O programa surgiu há três anos, junto com a Chango Digital (agência comandada pelo também juiz-forano Wagner Antônio Daibert Veiga em São Paulo). Eu sempre quis ter um programa de moda, mas precisei me tornar uma pessoa da moda para isso acontecer. Então, fui conhecer os bastidores, fiz um projeto com estilistas iniciantes para criar o mood board do “Ambulatório da M.O.D.A”. O programa surgiu para ser um espaço para a moda, sobre a moda, celebrando profissionais da indústria. As duas entrevistas mais importantes foram com a Xuxa (a pessoa mais camp que eu mais admiro no mundo do show business) e a atriz Luana Piovani (qualquer coisa que a gente faz com ela é sucesso, é divertido e alto astral). São os dois programas mais especiais, mas eu amo todos.

Recentemente você participou da avant-première de “O Diabo Veste Prada 2”, em Nova York. Como foi viver esse momento tão simbólico para alguém ligado à moda?
Ter ido na pré-estreia foi um sonho de criança realizado. Em 2006, eu ainda jovem nem pensava no mundo da moda. Mas já era ligado nas imagens e, quando assisti ao filme, foi um divisor de águas. Percebi que era esse o mundo que eu queria frequentar. E ser chamado para a avant-première, 20 anos depois, foi um fechamento de ciclo, uma certeza que estou no caminho certo. E foi muito especial representar o Brasil junto com uma marca global, como a Havaianas. Isso não tem preço.
Que outros eventos, convites ou encontros você destacaria que marcaram sua trajetória nesse universo?
O último VMA – Video Music Awards, ter comentado os ‘looks’ ao vivo para MTV, além do Festival de Publicidade há dois anos em Cannes e a cobertura das Olimpíadas, ambos com o TikTok.
Agora você também está atuando na novelinha da Globoplay “Icônica – De faxineira a fashionista”. Qual a expectativa?
Altíssima. Foi um convite muito especial, uma novela com o nome de “Icônica” inspirada no meu universo. Foi o estouro da boiada, acelerou meu coração. E eu me diverti muito fazendo, espero que isso me abra portas no audiovisual, como performer. Eu não gosto de dizer que eu sou ator, mas uma pessoa que faz performance, seja em cima de um palco, apresentando um programa, ou dando vida a um personagem. Ou fazendo uma performance no Parque Halfeld, que eu ainda tenho vontade de fazer. Ter sido chamado pela Globo, pelo autor Gustavo Reiz, que confiaram em mim para dar voz a essa personagem, a Pitonisa, foi muito mágico. Eu quero todo mundo assistindo!

PING-PONG FASHION
Um ícone de estilo: Marina Morena
Uma marca que te inspira: Marc Jacobs
Um desfile inesquecível: o último desfile do John Galliano para Maison Margiela com as modelos com a pele de porcelana da maquiadora Pat McGrath
Uma tendência que você jamais usaria: calça saruel
O melhor conselho de moda que já recebeu: vem da Pitty: “Seja você, mesmo que seja estranho. Seja você, mesmo que seja bizarro, bizarro”.
Moda em uma palavra: ventilação.









