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Quarto de bagunça

portafechada pexels Mathias Reding
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“É um tipo de arrumação que custa a ser feita e que muitas vezes preferimos adiar, porque talvez seja mais fácil conviver com essa porta fechada”. (Foto: Pexels/Mathias Reding)

Toda casa tem um quarto de bagunça, ou, pelo menos, um cômodo onde são amontoadas todas aquelas coisas que não sabemos onde colocar. É um espaço destinado a objetos quebrados, caixas que já foram abertas ou que, às vezes, ainda esperam perder o lacre, papéis antigos, roupas esquecidas, lembranças, coisas “que talvez ainda sirvam”. 

É quase um depósito de adiamentos, pois constantemente somos interpelados por pensamentos do tipo: “na próxima folga, eu arrumo”, “nas férias que vêm, aproveito para organizar” ou “Deste sábado, essa arrumação não passa.” Mas o tempo voa, e tudo continua do mesmo jeito. A tentativa frustrada de arrumar dura menos de quinze minutos, e a vida segue normalmente ignorando o caos trancado naquele espaço.

Olho para a porta entreaberta do quarto de bagunça, que aqui em casa é também conhecido como quarto dos fundos. Pela fresta, vejo uma pilha de livros, cadernos, trabalhos acadêmicos passados, revistas, jornais velhos e fitas VHS de filmes antigos. Penso: assim como toda casa, toda pessoa tem dentro de si um canto onde guarda ou adia certos sentimentos. 

Talvez todo quarto de bagunça fale também daquilo que carregamos por dentro. Essa percepção vem à tona quando nos damos conta de que talvez seja impossível manter tudo em ordem. Somos um acúmulo de afetos, desejos, culpas, decepções, memórias e dores, do mesmo modo que acumulamos caixas num quarto esquecido. 

Da mesma forma que, normalmente, o quarto da bagunça não fica visível para quem nos visita, porque a gente corre para fechar a porta quando a visita chega, quase ninguém mostra os próprios entulhos internos. Nós fazemos questão de escondê-los e, raramente, os revelamos. É um tipo de arrumação que custa a ser feita e que muitas vezes preferimos adiar, porque talvez seja mais fácil conviver com essa porta fechada. 

Aqui em casa, por enquanto, o quarto ainda continua bagunçado, e me faço alguns questionamentos: será possível manter tudo organizado a todo o tempo? Será que cada caixa esquecida precisa realmente ser aberta? Será que objetos inúteis mas cheios de memória podem ser reaproveitados? 

Ao tentar refletir sobre essas indagações, penso que pode ser possível compreender que algumas desordens sobrevivem e são cheias de sentido. Talvez o quarto não tenha assim tanta necessidade de arrumação imediata e ela possa vir com o tempo. Essa percepção talvez nos ajude a entender que existem situações impossíveis de serem solucionadas de uma só vez e que o tempo é habilidoso quando se trata de colocar cada coisa em seu lugar.  

 



Fonte: Google Notícias

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