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REGIÃO

Tempo livre ou tempo potente?

Presentes que não vem em caixas
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Há um período na vida da gente que o tempo muda de estação. Se antes ele corria demais – o dia tinha que ter mais do que 24 horas – hoje, aos 64 anos, a sensação é outra. O tempo não passa. Fica. Agora ele é longo. Alarga-se. Não tenho tantas novidades em mim. Vivemos numa sociedade que mede o valor da vida pela capacidade de produzir. A produção diminui, o olhar sobre nós se retrai, se distancia, fica longe.

Os convites cessam ou escasseiam-se com mais frequência. Presenças se tornam mais raras. Compareço mais ao Parque da Saudade. Um dia não volto. Vamos ficando à margem. Podemos alterar essa condição imposta pela sociedade. Há, com certeza – é o que estou construindo – uma outra forma de habitar esse tempo de hoje: há um outro jeito de fecundá-lo.

Não vivo mais para o tempo dos horários rígidos; das urgências impostas pelos superiores; das agendas cheias. Não tenho mais a obrigação de produzir coisas no tempo. Conquistei o tempo para viver. Conquistamos. Em boa hora vem a possibilidade do fim da agenda 6×1. Ter tempo para compartilhar uma conversa demorada; jogar conversa fora, como aprendi em Porciúncula/RJ; tomar café sem pressa com amigo/a; jogar futebol no sábado no Arkadyas Sênior. Usufruir de qualquer encontro simples que me gere vínculo.

O desafio cotidiano desse novo momento de vida é transformar o tempo da aposentadoria em tempo potente. Tempo para si. Tempo vivo. Depende de que? De um movimento pessoal, de dentro para fora, íntimo, firme, com pouco barulho externo, com algumas questões, entre outras: o que pulsa em mim? O que me seduz e me apaixona? O que, de mim, ainda pode nascer?

No fundo, o tempo nunca é apenas o que nos dão. Nós fazemos o tempo. E como diria, o imortal Renato Russo: “temos todo o tempo do mundo!” E podemos florescer dentro dele. O tempo livre pode ser uma ameaça ou possibilidade. Pode ser espera. Ausência. Mas também pode ser completude na falta: um lugar onde a vida prossegue sem pressa e com sentido. Ela continua acontecendo. Com um coração cada vez mais forte. E certamente, com mais verdade e sabor do que antes.



Fonte: Google Notícias

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